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Olá! Cá estou de volta a esta coluna, depois de longas férias de cinco meses. Não, não, não, não, não, não, não, não, calma, não vá pensando que eu quis dizer férias “fééérias” mesmo, daquelas que a gente larga o emprego urbano, deixando suas agruras pra trás, sai pra viajar e deita em alguma rede a beira mar rezando para que os cheques sem fundo venham bater só depois de sua estadia; não, não, não é nada disso; se você parar de ficar tendo ejaculação especulativa precoce e me deixar continuar, eu posso fazer a gentileza de explicar. Sentou? Relaxou? Pois bem, eu quis dizer que tirei férias de mim mesmo. Exatamente isso. Férias de mim mesmo. Por cinco demorados, quase intermináveis, meses, me vi me exercitando em não ser eu mesmo, eu, o Mod que você conhece; pode chamar isso de tentativa de exorcismo que cai muito bem – só que sem vomitar, torcer impossivelmente o pescoço e descer escadas como um contorcionista do Cirque du Soleil. É tudo por amor, fique você sabendo; tá, por amor “amooooor” não, mas por causa de uma conquista especialmente difícil. O nome da causa é Marcela, uma estagiária lá do jornal onde (finjo que) trabalho. Linda. De fazer parar as impressoras. Joelhos impressionantes. Furáculos perfeitos. Jade vítreo nos olhos. Só de falar meu p... peito ribomba incontrolavelmente. Porque é aquela coisa: quando um sujeito decidido, no auge de sua virilidade e pretensão, cisma que tem que pegar uma determinada desavisada, pouquíssimas coisas o demovem; quedas de asteróides talvez; quedas na Bolsa, tsunamis e rompimentos de barragens nunca (nessas últimas o cara nadaria pra árvore onde a moça se encarapitou). O fato é que pra conseguir meu intento tive que me sentar à mesa de negociações com a Marcela (normalmente não é esse o móvel que utilizo para discutir seja o que for com uma mulher); mas ela é jogo-duro. E por jogo-duro entenda por alguém que abomina, com todas as letras, as maravilhas dos relacionamentos abertos. Com ela tinha que ser tudo preto no branco, na base da honestidade ,da franqueza, da exclusividade, dedicação e da correção. Só pra você ter uma idéia, ela exigiu que eu estivesse completamente descompromissado apenas para me dar seu telefone...! No momento pouco me importou se ela fosse de Marte ou de Klingon (devia ser, pra pedir uma coisa dessas...), pois eu só pensava naqueles joelhos. Sacrifício feito, agenda com 300 contatos deletada, começou de fato meu calvário: parar de beber, parar de comprar fiado no boteco, parar de pedir emprestado aos amigos, pagar as dívidas aos amigos, mandar a Lucilene de volta pro Nordeste de madrugada sem testemunhas (isso foi por minha conta), ligar mais vezes pra minha mãe, fazer parte da lista nacional de doadores de órgãos, dar lugar aos idosos nos ônibus e parar de simular sono nessas ocasiões (pôxa, eu faço isso tão convincentemente...), fazer a barba, arranjar um emprego de gerente, andar sempre com pastilhas de hortelã no bolso e – o pior – trocar os tênis por sapatos. Eu disse que ela era jogo-duro... Mas também disse que sou decidido; e foi o que fiz. Ao fim de três árduos meses, seus joelhos ainda estavam inacessíveis, meu colarinho apertado por causa da gravata e metade dos meus amigos cabreiros comigo, curiosos sobre qual igreja afinal perpetrara o milagre em mim. Fomos ao cinema oito vezes, somente filmes franceses herméticos, ela prestando atenção a todos e detendo as investidas de minhas mãos com uma habilidade ninja ao longo de todas as sessões. Eu paguei a pipoca... Caminhamos três vezes na praça, dezoito vezes na alameda onde ela morava e uma vez na beira do lago, eu sendo praticamente obrigado a dizer palavras polissilábicas bonitas e educadas para não afastá-la nem fazê-la franzir o adorável narizinho. Eu paguei o milho cozido... Até poema me vi escrevendo. Poema! Com rima! Pode? Assistimos a um por de sol e a duas luas cheias. Menti pra ela sobre o desejo que fizera quando vi aquela estrela cadente. Paguei os chocolates quentes... Fiz feira uma vez com ela!... E não pechinchei uma vez sequer nem fiz gracinhas pra filha do vendedor de brócolis!!! Mas sexo sem escrúpulos que era bom... Como eu disse no início, isso durou exatos cinco meses. Há duas semanas, doido da vida com aquele chove-não-molha, as axilas coçando insuportavelmente (elas coçam muito quando fico nervoso), liguei para o Perestroika, aquele motelzinho xexelento no qual tenho uma espécie de conta vitalícia (conheci carnalmente a atendente da cabine) e reservei um calabouç... digo, um quarto. Suíte. Tá, não uma suíte “suííííte”... No Perestroika, suíte significa tão somente privada com tampa. Mas pedi que colocassem um vaso bonito com rosas chá na cabeceira (riram de mim; entretanto, o fizeram). E fui buscar a Marcela, vendando-a e dizendo que era uma surpresa doce (eu levava chantili na mochila). Não preciso nem dizer que a coisa babou. Claro que a Marcela já desconfiou logo que sentiu o cheiro do lugar. Também tive dificuldades em espantar os percevejos da cama quando ela se sentou e... ah, o fato é que meu verdadeiro eu falou mais alto no final, mais alto do que joelhos fenomenais ou furáculos graciosos. É que pra certas pessoas não funciona isso de posse corporal vitalícia; até no futebol isso está acabando! Não sou cara de uma mulher só e a única coisa que me envergonha nisso é às vezes (às vezes) precisar que elas paguem o preservativo. Além do mais, como diria Jung, vou até mais longe: o arquétipo tentador da savana aberta fica acenando pra gente... E lutar consigo mesmo pode ser mais sujo do que competição de jiu-jitsu feminina na lama. E eu disse isso tudo pra ela. Só não falei do jiu-jitsu... Claro que no final implorando perdão e puxando o chantili da mochila para tentá-la, mas... bem, nunca implore, pelo menos isso eu aprendi. Enfim, nunca mais vi a Marcela olhos de jade. É. Ela fez questão de mudar de cidade só pra me dificultar o acesso (ônibus intermunicipal todo fim de semana? Tá louco?...). Hoje, de volta a mim mesmo, continuo debruçado nos balcões sebosos de bar explicando pra quem quiser ouvir o que são furáculos; parei com os poemas; a barba voltou ao seu tamanho normal; não estou infeliz, se bem que não realizado, mas acho que posso conviver com esses reveses ocasionais. Nada que umas revistas não me recoloquem no rumo. Fim das férias. De novo no trampo. Prazer em te rever. ; ) Por Mod
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